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2020, o ano em que a Terra encolheu

  • Direito Financeiro

Consultor Jurídico, 5 de janeiro de 2021

Por Fernando Facury Scaff

Longe de mim querer fazer alguma espécie de balanço ou de retrospectiva de um ano ímpar na história da humanidade, que se tornará para sempre o Ano da Grande Pandemia de Covid-19, que ceifou milhões de vidas ao redor do planeta, com números ainda crescentes. Nesta primeira coluna de 2021, o intuito é apenas o de traçar uma das características de 2020, que foi a do predomínio da ciência e da tecnologia, e, com isso, constatar que o mundo encolheu.

No início do século, o jornalista Thomas L. Friedman (não confundir com o economista Milton Friedman) lançou um livro extremamente interessante, que cito de memória, intitulado “O mundo é plano”. Nessa obra ele constatava, com bastante razão, que as distâncias socioeconômicas haviam encolhido em face da globalização, e que, se considerássemos o mundo como uma espécie de pirâmide, em que as nações mais desenvolvidas ocupassem seu topo, estava ocorrendo uma espécie de achatamento (por favor, não o confundam com um reles terraplanista; o enfoque é outro). No livro ele discorre sobre diversos aspectos, como o da contabilidade de grandes corporações norte-americanas cuja escrituração não era mais realizada naquele país, mas na Índia, com um custo muito menor e maior agilidade em razão do fuso horário. Outro aspecto por ele destacado foi o da logística, que passou a considerar pontos de distribuição das mercadorias de forma global, a fim de atender ao comércio eletrônico em qualquer parte do mundo, e não apenas no território de um certo país — e isso antes da explosão da Amazon e do DHL. O livro é deveras interessante e a tese central de que o mundo havia se tornado mais plano em razão da globalização é muito pertinente.

Uso a mesma lógica para dizer que em 2020 nosso mundo encolheu, em face da pandemia. Destacarei apenas alguns pontos para reflexão.

Desmaterializamos nossos contatos pessoais. Aplicativos como o Zoom, o Google Meets e assemelhados invadiram nosso dia a dia. Eles antecedem a pandemia, mas seu uso era residual, e não central em nosso quotidiano. Nas relações de ensino, essas plataformas foram determinantes, assim como o Moodle. Para a atividade judicial os sistemas de notificação eletrônica se ampliaram, assim como as audiências virtuais. O que era já existia, como a TV Justiça, passou a ser um instrumento importantíssimo para conhecer o que estava sendo julgado nos tribunais brasileiros. Avôs e avós passaram e manter contato com suas famílias, às vezes em continentes distantes, através desses sistemas. A medicina não teria tido condições de desenvolver uma vacina contra a Covid-19 em tão pouco tempo sem esses sistemas de comunicação e o contato e esforços coletivos com um mesmo objetivo. Conheço um professor de Direito Tributário que, com alegria, me dizia que havia participado de um evento na Índia pela manhã e à noite ministraria aulas de graduação na USP, com apenas uns cliques no computador, sem sair de sua casa. O alcance disso foi enorme, e as ideias passaram a circular com maior facilidade e amplitude.

Isso ocorreu não apenas no âmbito da comunicação e dos serviços, mas também no e-commerce, o que é um pouco mais complexo, pois envolve a entrega física de mercadorias. Enquanto muitos estavam de quarentena, e outros nem tanto, as compras pela internet se multiplicaram, tornando, mais uma vez, o que era periférico em central. Até mesmo um sistema de pagamentos simplificado, como o Pix, foi disponibilizado à população.

Enfim, pessoas se conectaram virtualmente de forma mais fácil umas às outras através desses instrumentos tecnológicos, e, com isso, também a ciência avançou e muitos sobrevivemos. Paradoxalmente, 2020, o ano da Grande Pandemia, foi o ano da ciência e da tecnologia.

A ideia de que a Terra encolheu parte da maior proximidade entre as pessoas, e a ampliação da quebra de fronteiras físicas, com ampla desterritolização. Dificilmente teríamos iniciado a vitória da raça humana contra o vírus — o que já ocorre em alguns países, que possuem governos mais atentos aos cuidados de sua população — sem essa possibilidade de conexão fácil, rápida e barata.

Mantendo o plano das metáforas, não se pode afirmar, como fez o jornalista Thomas Friedman no início do século, que o mundo se tornou mais plano durante a pandemia, pois a desigualdade socioeconômica se ampliou. Quem dispunha de tecnologia partiu na frente, e as diferenças na retomada econômica ampliarão as diferenças nesse âmbito. Nesses meses pandêmicos já transcorridos constata-se que os pobres ficaram ainda mais pobres e os ricos ainda mais ricos, e que esse fosso tende a se ampliar, a despeito de medidas pontuais de auxílio emergencial concedido aqui e alhures. Esse abismo social não respeita fronteiras, embora também isso esteja ocorrendo entre países. Isso lembra uma música dos Titãs: “Miséria é miséria em qualquer canto/Riquezas são diferentes/Índio, mulato, preto, branco/Miséria é miséria em qualquer canto”.

A ideia, colocada para debate, é que o mundo encolheu, pois nos tornamos mais próximos, dissolvendo barreiras físicas e territoriais. O que antes requereria horas de voo e tempo para sua realização foi reduzido para frações de minutos. Foi também potencializada a colaboração científica em rede, como se vê no âmbito da medicina. No seio de nossos lares, escritórios ou laboratórios, pudemos acessar o mundo e trabalhar em conjunto, com foco, rapidez e baixo custo. Nesse sentido é que me parece ter o mundo encolhido.

Para que tudo isso funcione mais e melhor é necessário ter governos preocupados com o bem estar da população, e que não neguem o valor e a importância da ciência e da tecnologia. Não foi o que se viu no Brasil em 2020 — espero que mude.

Quando nosso quotidiano voltar ao normal, o que espero ocorra rapidamente, esse novo patamar de relacionamento estará presente em nossas atividades pessoais e nas decisões de investir das empresas. Será isso que estão chamando de novo normal?

Confesso que estou louco de vontade de voltar a aglomerar saudavelmente com os amigos e familiares, com os colegas docentes e alunos, com advogados, clientes e juízes, e até mesmo com a moça que serve café na padaria da esquina — de qualquer esquina.

Nesta primeira coluna de 2021, desejo a todos que possamos rapidamente voltar a aglomerar presencialmente com saúde.

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